29/09/18 - 00:43

Especial ‘Doenças Cardiovasculares’

‘É preciso se apropriar da saúde; a garantia de saúde está dentro de nós’ Adotar hábitos saudáveis o quanto antes previne doenças cardiovasculares e impede gastos e tratamentos invasivos, afirma a médica Rita Vilanova


As doenças cardiovasculares são responsáveis por um número cada vez maior de adoecimento e morte no Brasil e no mundo. Nesta entrevista, a gerente técnica da Casembrapa, a médica Rita Vilanova, fala sobre a importância de se cuidar da própria saúde desde cedo, a fim de evitar maiores riscos à saúde.

Entrevista:

Casembrapa – O Ministério da Saúde tem chamado a atenção para o papel do paciente na prevenção das doenças cardiovasculares. O que uma pessoa tem de saber para se prevenir contra esses males?

Médica Rita Vilanova – É preciso que as pessoas entendam que elas mesmas devem se apropriar da saúde, individualmente. Quando você já está doente, vai ao médico, você delega a ele o cuidado da sua saúde. Os estudos mostram que a maior capacidade de garantir saúde por mais tempo está dentro de cada um de nós, através da prevenção, da adoção de hábitos de vida saudáveis.

CAS – Como a adoção desses hábitos pode ser benéfica ao paciente?

Rita – Para a sociedade num todo, e individualmente, é muito mais barato prevenir do que tratar. A sociedade precisa mudar de paradigma. Hoje temos uma medicina muito mais curativa do que preventiva, e é preciso inverter isso. Cuidar da doença é muito mais caro do ponto de vista socioeconômico e muito mais difícil, muito mais doloroso tratar a doença do que prevenir.

CAS – Que hábitos saudáveis são esses?

Rita – Uma alimentação equilibrada, restringindo o uso de açúcar e gordura, a cessação do tabagismo, que é responsável por uma serie de doenças, e de outras drogas, o uso moderado de bebidas alcoólicas, a prática de exercícios físicos regulares, a manutenção do peso adequado e o combate ao estresse excessivo são benéficos. Controlando a ingestão de açúcar e fazendo atividade física se previne ainda o diabetes tipo 2, que é o adquirido. Ele, por si só, aumenta o risco de doença cardiovascular e de outros comprometimentos.

CAS – Todos devem adotar esses hábitos ou só aqueles com histórico familiar de doença cardíaca, diabetes, hipertensão ou obesidade?

Rita – Todos devem buscar hábitos saudáveis. Se você tem casos na família é preciso uma atenção maior, pois a condição genética pode te colocar como mais vulnerável a desenvolver uma doença cardiovascular. Mas os outros não têm que se sentir relaxados em relação a isso. Porque uma criança, por exemplo, pode ter pai e mãe magros e ter uma alimentação equivocada, sobretudo nos primeiros dois anos de vida, e se tornar um adolescente ou um adulto jovem com uma série de problemas em decorrência desses maus hábitos. A genética faz com que você tenha uma atenção ainda melhor, mas não te exime da responsabilidade de cuidar de você.

CAS – Quem já passou dos 30, 40 anos, também pode ter benefícios com a mudança de hábitos?

Rita – Nunca é tarde para se ter hábitos saudáveis. Mesmo para quem já tem hipertensão, diabetes, um estilo de vida saudável reduz a necessidade de medicamentos e aumenta o tempo da doença sem sequelas. Você pode ter diabetes tipo 2, mas com atividade física, boa alimentação, bons hábitos de vida, você pode deixar de ser diabético. Ou você pelo menos ter um melhor controle da glicemia e por isso precisar de menos medicamento de controle. A doença vai se manifestar de forma mais branda. É diferente da pessoa que tem a doença e não cuida dos hábitos. Para ela, as consequências tendem a ser mais precoces, acentuadas e agressivas. Então nunca é tarde para melhorar hábitos de vida. Claro que quanto mais precoce, melhor.

CAS – Esses cuidados então devem ser tomados já na infância?

Rita – Sobretudo nos dois primeiros anos de vida. Antes se ensinava as mães a fazerem a mamadeira com leite, farinha e açúcar. Hoje isso é totalmente proscrito. Se demonstrou que os bebês farináceos, como a gente chama, se tornaram adultos com dificuldade de manter o peso. Mesmo com atividade física, elas brigam mais com a balança do que quem foi magro na infância. Então não é deixar para se cuidar depois de adulto, é começar a cuidar com os pais – eles têm essa responsabilidade com os filhos, especialmente se há casos na família. É aí que começa a cura. A responsabilidade começa na barriga. Estudos mostram que crianças cujas mães se alimentaram de forma correta, praticaram atividade física regular, tiveram ganho de peso adequado na gravidez, se tornaram adultos mais saudáveis do que crianças geradas em mães que não tiveram esse mesmo cuidado.

CAS – A senhora cita a obesidade como fator de risco. Ser magro é garantia de boa saúde?

Rita – Não. Existe o magro que não é saudável. O sobrepeso e a obesidade são fatores importantes de agravamento do risco, mas essas doenças não são exclusivas dos “gordinhos”. Até porque você pode ser magro, mas ter o colesterol altíssimo, pressão alta, comer sal demais. Se tem uma alimentação cheia de produtos industrializados, ultraprocessados, com alto teor de sódio, açúcar ou gordura, se fuma, não faz atividade física regular, você pode não ter um condicionamento cardiovascular, não conseguir subir dois lances de escadas sem perder o ar. É importante a gente não pensar que as doenças cardiovasculares são exclusividade de pessoas com sobrepeso.

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